Os significados do brasão de São Roque

Nos últimos dias uma mudança na página do Facebook da prefeitura de São Roque tem mobilizado debates online. A página alterou as cores do atual brasão da cidade para roxo e branco (como visto acima) e gerou reclamação de algumas pessoas. A repercussão se tornou maior com vereadores da oposição se mobilizando sobre o tema.   

O vereador Marquinho Arruda (PSDB) protocolou um requerimento para a prefeitura explicar a mudança no brasão, enquanto o vereador Niltinho Bastos(PP) apresentou um projeto de lei para proibir a ação. A mudança ocorreu depois da aprovação da Lei Municipal 5.175, na sessão do dia 20 de janeiro, que legislou sobre ações de marketing da prefeitura.

Aproveitando o debate, a São Roque Dados entrou em contato com a historiadora e museóloga da cidade, Silvia Mello, para conhecer quais os significados do brasão de São Roque. O resultado dessa conversa e os segredos do brasão podem ser conferidos abaixo

Heráldica

A heráldica é a arte ou ciência cujo objeto é o estudo da origem, evolução e significado dos emblemas blasônicos, assim como a descrição e a criação de brasões (‘peça ou composição’). O estudo da heráldica tem um escopo desde brasões familiares da Idade Média europeia, até aos atuais slogans de produtos comerciais.

Quando perguntei sobre a heráldica do brasão sanroquense, a historiadora Silvia Mello prontamente me apresentou o livro dos 300 anos da cidade, “3º Centenário de São Roque”, organizado por Vero de Lima e André Villani. No livro há um texto de Afonso de Taunay sobre o atual brasão da cidade. Taunay é figura reconhecida na história paulista, sendo um dos primeiro a organizar uma história da província de São Paulo e uma referência no assunto até hoje. Ocupou a 1ª cadeira da Academia Brasileira de Letras, fundada por seu pai, e foi um dos diretores do Museu Paulista, também conhecido como Museu do Ipiranga, localizado em bairro de mesmo nome, na capital São Paulo. Taunay, além de historiador e biografo era também heráldico, e foi responsável pela criação do brasão de algumas cidades como Joinville e Uberaba.

Ou seja, o texto de Taunay, ainda que breve, é carregado de importância e credibilidade. O texto, entretanto, não faz referência a exatamente o mesmo brasão que hoje conhecemos. Isso porque o atual brasão foi oficializado em 1977, pela gestão de Quintino de Lima, em substituição do brasão de 1954, da gestão de Castilho Cabral. A descrição do brasão feito por Taunay, e o brasão modificado em 1977 não parecem carregar nenhuma grande diferença.

A capa do livro do terceiro centenário traz a imagem do brasão e, como pode ser visto, não é muito diferente da versão atual. Além de pequenos detalhes, a grande diferença parece estar na Coroa sobre o escudo, que passou de 3 torres para 5 torres e muda sua cor de marrom para prata.

Vejamos agora cada um dos elementos que compõem o brasão da cidade, e seu significado segundo Afonso de Taunay.

Coroa mural

É a coroa mural que representa a localidade e categorias político-administrativas. Segundo o heráldico Jocélio Santiago Andrade, a coroa de 5 torres, de cor prateada, representa uma sede de comarca ou munícipio, enquanto que a dourada representa uma capital de província.  A coroa que Taunay analisou é a de 3 torres, usada para representar a sede de uma aldeia ou povoado (menor do que um município). Talvez tenha sido esse o motivo para a atualização do brasão nos anos 70.

Escudo português

O formato do escudo, reto na parte superior e arredondado na inferior, é conhecido como escudo português, também conhecido como boleado, espanhol, flamengo, ibérico e peninsular. Segundo Andrade, este escudo é o mais comum entre os municípios brasileiros, tendo sua origem, muito provavelmente, ligada à colonização portuguesa e ao símbolos portugueses utilizados pelo Império brasileiro.

Família Paes de Barros

Tanto o castelo, com as águas prateadas e as três estrelas ao céu no lado esquerdo, como o conjunto de estrelas e losangos do lado direito, representam os nomes Paes e Barros, em referência aos fundadores Pedro Vaz de Barros e Fernão Paes de Barros. O castelo, as ondas de prata e as três estrelas são atributos dos nomes Paes e Barros, enquanto que as figuras do lado direito são lisonjas conquistadas.

O Santo

Na parte superior do escudo, ao centro, a imagem do santo São Roque em posição consagrada pela iconografia católica: o cajado, manto e chapéu, representando a peregrinação; a chaga exposta representando a lepra a qual curou em milagres; e o cão com um pão na boca, representando o período em que contraiu a lepra e se curou.

Fazenda Santo Antônio e Rio Carambeí

Hoje conhecido como Sítio Santo Antônio, é referenciado como Fazenda por Taunay. Do lado esquerdo está a casa e do direito a igreja da fazenda, que fazem referência ao século XVII, época de construção do Sítio. Hoje, tombado pelo IPHAN, órgão federal responsável pelo patrimônio histórico e cultural brasileiro, é um dos poucos representantes do século XVII no estado de São Paulo. Na época, o patrimônio comemorava 16 anos de tombamento e de reconstrução, já que fora encontrada em outra configuração por Mário de Andrade, nos anos 30. Abaixo da fazenda, desenhado com três ondas, o rio Carambeí que corta o munícipio.

Mea Paulista Gens

O listel, segundo Andrade, é um local para informações sobre localidade, fundação e lema (caso exista) do munícipio. No caso sanroquense, o brasão tem apenas o lema. A frase em latim Mea Paulista Gens, é traduzida por Taunay como “Minha Grei é Paulista”. O termo “grei” significa sociedade/partido ou paroquia, é tem uso mais comum ainda hoje na religião cristã e utilizado em algumas traduções dos salmos bíblicos. 

O Bandeirante e o Indígena

Um dos componentes mais trágicos do brasão são as figuras do bandeirante e do indígena. O bandeirante, à esquerda, veste o gibão de armas, vasto chapéu e bacamarte, antiga arma de fogo. Como apontado pelo historiador Paulo Garcez Marins, do Museu Paulista, tal imagem foi criada no século XX para enaltecer o bandeirantismo e a história paulista, mas estava bem longe da vestimenta real dos bandeirantes. Aos poucos a imagem idealizada foi se difundindo e ganhando força nas representações dos bandeirantes, muito por ação do próprio Afonso de Taunay, enquanto diretor do Museu Paulista, como aponta o profº Paulo Garcez.

Já do outro lado, à direita, o indígena de lança na mão e uma planta não identificada representa “as grandes aldeias dos domínios Barros”. A união de figuras bandeirantes e indígenas em brasões municipais é comum no estado paulista e retratam, de maneira suavizada, o extermínio e a escravização dos povos indígenas proporcionada pelos bandeirantes. Em São Roque não foi diferente. O povo nativo da cidade foi exterminado e apagado da história local.

Com poucas alusões existentes, é provável que estes fossem os “Guayanás”, nome dado pelos colonizadores aos indígenas hoje identificados como Kaingang e outros grupos que os colonizadores portugueses confundiam com os kaingang.  A etnia é citada pelo Barão de Piratininga no romance “A Cruz e o Cedro”, ao se referir a um indígena nativo da cidade. É provável que o nome “Goianã”, nome de bairro e do largo hoje nomeada como Largo dos expedicionários, faça referência ao grupo nativo, assim como o bairro Guaianazes, da zona leste da cidade de São Paulo.

Oliveiras e Sarmentos

As laterais do brasão é um espaço usado para referências históricas, da fauna/flora ou econômicas. No caso sanroquense, o brasão traz elementos da agricultura da cidade. Segundo Taunay, as plantas são sarmentos (também chamados de videiras) e oliveiras, que faziam referência às “grandes culturas do munícipio atualmente”, sendo que atualmente faz referência aos anos 50. 

Estes são os significados do brasão da cidade. Há, entretanto, uma grande questão sem resposta: quem foi o responsável pela criação do brasão? Diferente de outros munícipios, que conhecem o autor de seus brasões, em São Roque a autoria é um mistério. Quem sabe a resposta não está em algum arquivo esquecido na prefeitura, na biblioteca municipal Arhtur Riedel ou nos arquivos da Igreja? Quem sabe um dia saberemos…

Gostou do texto? Acompanhe a São Roque Dados para mais conteúdo sobre a história e dados da cidade e região.

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